Vertentes da divulgação científica em dois eventos

Roberto Torres Tangoa*

Resumo
O artigo analisa o diálogo entre dois eventos de divulgação científica e as linguagens usadas por eles na busca por métodos para aproximar a ciência das populações. Um deles de disseminação entre os pares; o outro, de divulgação entre as pessoas com ou sem vínculos direitos com a academia. Ambos os eventos tiveram um ponto em comum: divulgar as ciências. O I Neurolatam trouxe iniciativas na aplicação de novas tecnologias de informação e comunicação, TICs, para o ensino formal e divulgação das neurociências; o outro, Hands-on Science, tratou do ensino não formal de ciências, através da iniciativa de pôr “mãos na massa”, proposta que busca iniciar um novo paradigma no ensino-aprendizagem, com a elaboração de materiais simples, baratos e lúdicos para serem usados na aprendizagem multidisciplinar das ciências.

Palavras-chave
Divulgação científica, ensino formal, ensino não formal, mãos na massa, Neurolatam, Hands-on Science.


Introdução

O trabalho é resultado da reflexão e análise da divulgação científica tendo como foco o I Congresso IBRO/LARC de Neurociências da América Latina, Caribe e Península Ibérica, ou I Neurolatam, realizado em Búzios/RJ, em setembro de 2008, e a 5th International Conference on Hands-on Science, em Olinda/PE, em outubro do mesmo ano. Encontros estes surgidos da necessidade premente de divulgar a ciência, incluir os cidadãos, e a favor dos movimentos que ganham espaços no cenário mundial. Este estudo efetua abordagem comparativa de duas propostas de divulgação científica e a forma como microssociedades de pesquisadores, cientistas e educadores das universidades, institutos e museus de ciência dos países participantes reproduzem e disseminam os conhecimentos. Análises preliminares indicam que a divulgação das neurociências e das ciências em geral, na versão não formal, constitui ferramenta para ressaltar a evolução cognitiva da ciência quanto à sua popularização, objetivando públicos diversos com métodos e ações diferentes.

Vertentes da divulgação científica


Na 5th International Conference on Hands-on Science, característica marcante foi a mediação do ensino de ciências de maneira não formal,em que o divulgador deve estar atento a eventuais desvios de compreensão, promover reflexões e reavaliações do alcance de suas ações nas práticas pedagógicas.

A divulgação científica abrange a transdisciplinaridade, atinge desdobramentos conceituais, pertinentes ao avanço da difusão dos conhecimentos. Um dos elementos pontuais desta breve análise é a linguagem, considerada predominante na divulgação científica porque é ponte que une o interlocutor ao ouvinte, numa comunicação sincrônica, e porque nela convergem elementos da divulgação científica.

Nesses eventos, a objetividade e subjetividade da divulgação se fizeram eficientes quando atingiram heterogeneidade de públicos; para isso foram necessárias estratégias que dimensionassem sua importância. As linguagens interativas empregadas foram ícones marcantes. Linguagem no sentido bakhtiniano, que concebe a língua não somente como forma de sentido abstrato, mas como produto de uma criação coletiva, integrante de um diálogo cumulativo entre o “eu” e o “outro”, entre muitos “eus” e muitos “outros”. Foram características que percebemos nos dois eventos.

No Neurolatam observou-se o emprego de uma linguagem voltada para aplicar ferramentas tecnológicas na difusão das neurociências em proporções globais, sem a participação presencial dos interessados no evento. Já no Hands-on Science observou-se o emprego de ferramentas tecnológicas mais interativas e mais simples para o ensino, acessíveis aos interessados em aprender ciência.

Devido às linguagens diversificadas e interpretações diferentes de cada individuo no que se refere à ciência, tais características foram percebidas por alguns cientistas. Assim, um mesmo fenômeno ou experimento científico recebia diferentes denominações, muito mais marcantes nas periferias ou no interior das grandes cidades brasileiras. Singulares designações que encontraram os cientistas nas mostras itinerantes, nas falas das pessoas, instigando nossa atenção, não pela rigorosidade conceitual da ciência, mas pela carga semântica das suas falas, atribuída aos experimentos apresentados.

Conclusões

O Neurolatam e a 5th International Conference on Hands-on Science evidenciaram preocupações diversas com relação à divulgação científica, por dados quantitativos e qualitativos, além de constituírem espaços para incubar novos paradigmas na divulgação dos conhecimentos, utilizando a interatividade e a interdisciplinaridade. Os neurocientistas e pesquisadores do I Neurolatam interagiram com seus pares de forma direta e dinâmica, via discursos, discussões e debates. No entanto, na conferencia Hands-on Science, característica marcante foi a mediação do ensino de ciências de maneira não formal, pois aqui o divulgador deve estar atento a eventuais desvios de compreensão, promover reflexões e reavaliações do alcance de suas ações nas práticas pedagógicas.

Tabela comparativa

Variáveis

Neurolatam Hands On-Science
Total de participantes 2.454 420
Nº de países participantes 38 19
Nº total de pôsteres 1.213 23

Referências bibliográficas

ALMEIDA, M. J. P. M. “O texto escrito na educação em física: enfoque na divulgação científica”. In: ALMEIDA, M. J. P. M. e SILVA, H. C. (orgs.) Linguagens, leituras e ensino da ciência. Campinas, SP: Mercado de Letras, Associação de Leitura do Brasil, 1998.

BAKHTIN, M. M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986.

ZAMBONI, L. M. S. Cientistas, jornalistas e a divulgação científica: subjetividade e heterogeneidade no discurso da divulgação científica. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.


* Roberto Torres Tangoa é formado em Pedagogia e tem pós-graduação em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. É pesquisador em divulgação científica no Laboratório de Neurociências do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, com enfoque em produções bibliográficas e vídeos educativos para divulgação dos trabalhos dos neurocientistas do Núcleo de Estudos em Neurociências e Comportamento, NeC, do Instituto de Psicologia da USP. Foi aluno da 2ª Oficina de Redação em Divulgação Científica, realizada em 2009, com participação da Legulus, na ECA/USP.


Ler as demais matérias desta edição

Retornar à edição atual