Formação generalista e crítica de profissionais de saúde

Tiago Teófilo*

Desde a metade do século passado a ciência moderna está passando por um processo de fragmentação. Muitas vezes, especializações em nível acadêmico têm contribuído com avanços científicos, porém, geram descompassos na perspectiva do entendimento de questões complexas. A saúde é um campo rico em questões complexas. Como exemplo, observamos que a dengue, por exemplo, é estudada por especialistas em virologia, imunização, combate ao vetor, educação popular, e mesmo assim, ainda não se conseguiram muitos avanços no controle da patologia.

Nesse contexto, a universidade se depara com a dificuldade de formar profissionais generalistas, em especial de saúde, capazes de dar respostas a muitas questões complexas. A divisão de conteúdos por disciplinas e a “super-especialização” da atenção à saúde têm levado os estudantes universitários da saúde a escolherem sua especialidade ainda no início de sua graduação. Esta etapa da formação, por sua vez, ainda está ancorada pelo modelo flexneriano, o qual reforça a centralização das disciplinas nas ciências básicas e a “tecnificação” ao eleger apenas o hospital como espaço central de aprendizagem.


A formação crítica dos profissionais de saúde não desconhece a necessidade das especializações no cuidado à saúde, porém, pretende inserir no mercado de trabalho profissionais capazes de intervir com efetividade e eficácia nos complexos problemas de saúde do século XXI.

Com a tendência crescente de mercantilização da saúde, a idealização do “poder comprar” a própria saúde tem impulsionado o processo de fragmentação do ser humano no que diz respeito ao cuidado à saúde. Porém, não se encontrará, nem pagando caro, uma atenção individualizada e integral se a procura for apenas pelos especialistas. Neste ínterim, observa-se ainda o forte investimento de empresários do ramo da educação em ensino superior privado. O que tem levado muitos a “comprarem” sua formação superior, quando possível, mais barata, mesmo que não tenha qualidade.

O profissional da saúde encontra na graduação o indispensável espaço da formação generalista. Com o objetivo de desenvolver estes profissionais, esta etapa deve proporcionar ambientes de aprendizagem significativos que coloquem o estudante na posição de construtor do próprio conhecimento. A educação de jovens e adultos deve concentrar esforços na procura pela interação dos estudantes com situações concretas, propondo-lhes desafios a serem superados.

É bastante comum perceber-se a forte centralização docente nos processos de ensino-aprendizagem. Muitas vezes o professor dita as regras do jogo pedagógico, não interage democraticamente com os estudantes, e se coloca como a fonte maior de conhecimento, pelo qual se deve absorver a aprendizagem. Porém, neste ambiente preocupa-se muito mais com a técnica como um fim em si mesmo, do que com as questões complexas da saúde-doença das pessoas. Em vez de facilitador, o docente se coloca como opressor ao desvalorizar o conhecimento prévio dos estudantes.

Nas disciplinas básicas, em sua maioria estudadas por todas as profissões da saúde, como a bioquímica, biofísica, anatomia, patologia, histologia etc., este processo vertical de ensino-aprendizagem ocorre com maior frequência, sendo discretamente melhorado quando das disciplinas profissionalizantes, ou práticas do final dos cursos de graduação tradicionais.

A formação crítica dos profissionais de saúde não desconhece a necessidade das especializações no cuidado à saúde, porém, pretende inserir no mercado de trabalho profissionais capazes de intervir com efetividade e eficácia nos complexos problemas de saúde do século XXI, tendo na metodologia ativa de ensino-aprendizagem o motor de construção do pensamento holístico sobre o ser humano em suas relações socioambientais, culturais, espirituais, morais, políticas etc.


* Tiago Teófilo
é enfermeiro, residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família, pela Escola de Formação em Saúde da Família Visconde de Sabóia, de Sobral/CE. É também membro da linha de pesquisa Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde, da UFRJ. Foi aluno do curso Leitura e Escritura da Divulgação Científica, versão à distância, da Legulus.


Ler as demais matérias desta edição

Retornar à edição atual