Cientistas indianos avançam na pesquisa de vacina contra a filariose linfática
Doença apresenta forma crônica capaz de deformar pernas e órgãos genitais

Danilo Ciccone Miguel*

A filariose linfática, popularmente conhecida como elefantíase, é uma doença distribuída em diversas regiões do mundo como África central, sul asiático e algumas ilhas do Pacífico. Nas Américas, existem registros da doença em diversos países e, no caso do Brasil, alguns focos limitam-se a Recife e Aracaju. Os parasitas causadores da doença são vermes delgados que, quando adultos, medem de 4 a 8 centímetros e podem pertencer a diferentes espécies, sendo Wuchereria bancrofti, uma das mais comuns. O nome elefantíase é propício, já que em raros casos (cerca de 10% das infestações, dependendo da região) os pacientes podem apresentar inchaço nas pernas e órgãos genitais decorrente do acúmulo de tecido fibroso, restos de células e de vermes que circulam pela linfa.

Populações de países que são endêmicos para a filariose, ou seja, onde as taxas de infecção são permanentes, encaram a elefantíase como um estigma social, uma vez que os doentes apresentam deformações físicas importantes que os tornam incapazes de trabalhar, namorar e até casar. O controle da filariose é feito à base de tratamento com remédios e do extermínio de mosquitos transmissores dos vermes. Até o presente momento não existe vacina disponível para a doença, porém, se depender dos esforços de um grupo de cientistas nos Estados Unidos e na Índia, a filariose linfática pode estar com seus dias contados.


Grandes vilões. Na imagem acima, à esquerda, observa-se um mosquito do gênero Culex durante alimentação de sangue. É neste momento que o inseto é capaz de injetar o verme causador da filariose na pele humana. As formas larvais da filária Wuchereria bancrofti, denominadas microfilárias (à direita, na ilustração), podem ser encontradas na circulação sanguínea dos pacientes durante a noite (leia box ao final deste texto).

Liderados pelo veterinário R. Kalyanasundaram, os pesquisadores avançaram nos estudos para se estabelecer uma vacina que futuramente poderá imunizar o homem contra este parasita. A pesquisa desenvolvida foi publicada em junho no periódico especializado PLoS Neglected Tropical Diseases, da Biblioteca Pública de Ciência norte-americana. No estudo realizado, os autores fizeram com que bactérias passassem a produzir a proteína glutationa-S-transferase (GST), de Wuchereria bancrofti. A GST é uma proteína naturalmente sintetizada pelo verme e tem uma função primordial no escape do parasita quando este encontra um arsenal de compostos tóxicos produzidos pelo sistema imune do hospedeiro. O interessante é que quando essa proteína foi incubada com o soro de pacientes infectados, tanto doentes como não doentes, além de pacientes não infectados de áreas endêmicas, foi visto que em todos os casos havia a detecção de anticorpos contra a GST do verme.

Além disso, a equipe também demonstrou que, quando roedores foram imunizados com injeções da proteína GST e infectados com larvas de filárias, mais de 60% dos animais mostraram-se protegidos, ou seja, não desenvolveram a doença. A descoberta pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de uma vacina candidata ao combate da filariose linfática e que, certamente, se tornaria a medida profilática ideal a ser empregada em seu controle.

O artigo pode ser acessado na íntegra em http://www.plosntds.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pntd.0000457.


Larvas Wuchereria bancrofti trocam o dia pela noite

Dentre alguns diagnósticos realizados para a identificação de filárias em pacientes, destaca-se a busca pelo verme no sangue. Para isso, amostras de sangue devem ser colhidas e montadas em lâminas para exame em microscópio. Curiosamente, essa coleta deve ser feita entre 10 horas da noite e 4 horas da madrugada. Isso porque durante o dia as larvas (microfilárias) acumulam-se no interior dos vasos sanguíneos dos pulmões e, à noite, ganham a corrente sanguínea em um número que aumenta gradativamente até as primeiras horas da madrugada. Diferentes hipóteses já foram elaboradas para explicar o aumento da população de microfilárias no interior dos vasos durante o período noturno; entretanto, os mecanismos biológicos que explicam tal fenômeno não são bem compreendidos. Mais interessante ainda é que este comportamento de W. bancrofti em focos de infecção da América, Ásia e África não é verificado para outras espécies das ilhas do sul do Pacífico, em que as filárias podem ser encontradas na circulação tanto de dia quanto à noite.


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Danilo Ciccone Miguel, bacharel e licenciado em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), é atualmente doutorando pelo Departamento de Parasitologia do ICB-USP e Bolsista da FAPESP. Foi aluno da 2ª Oficina de Redação em Divulgação Científica, realizada em 2009, com participação da Legulus, na Escola de Comunicações e Artes da USP.


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