Ler
e escrever. Ensinar e aprender. Pensar e se expressar. Compreender
e comunicar.
Mauro
Celso Destácio*
Ler
e escrever. Ensinar e aprender. Pensar e se expressar. Compreender
e comunicar. O que estas palavras, ou melhor, conceitos, significados
e sentidos nelas condensados, têm em comum? Muita coisa, dirão
alguns. Ler implica em compreender, da mesma forma que escrever
implica em comunicar – poderá ser uma boa resposta.
Ainda assim, muito da relação entre essas palavras,
e entre as ideias por elas envolvidas, ficará nebuloso, obscuro.
E nada melhor que consultar alguns de nossos grandes mestres para
enxergarmos com maior lucidez o dinamismo por trás da ligação
entre esses termos, tão usados no dia a dia da maioria de
nós, independentemente de classes sociais ou intelectuais.
O
filólogo, linguista e crítico literário Othon
Moacyr Garcia (1912-2002), autor do célebre Comunicação
em prosa moderna, lançado em 1967 e hoje em sua 26ª
edição (Editora FGV, 2006), nos diz, na quarta parte
do livro, intitulada “Eficácia e falácias da
comunicação”, logo em seu capítulo 1:
| 
Othon
Moacyr Garcia
|
Aprender
a escrever é, em grande parte, se não principalmente,
aprender a pensar, aprender a encontrar idéias e a
concatená-las, pois, assim como não é
possível dar o que não se tem, não se
pode transmitir o que a mente não criou ou
não aprovisionou. Quando os professores nos limitamos
a dar aos alunos temas para redação sem lhes
sugerirmos roteiros ou rumos para fontes de idéias,
sem, por assim dizer, lhes ‘fertilizarmos’ a mente,
o resultado é quase sempre desanimador: um aglomerado
de frases desconexas, mal redigidas, mal estruturadas, um
acúmulo de palavras que se atropelam sem sentido e
sem propósito; frases em que procuram fundir idéias
que não tinham ou que foram mal pensadas ou
mal digeridas. Não podiam dar o que não tinham,
mesmo que dispusessem de palavras-palavras, quer dizer, palavras
de dicionário, de noções razoáveis
sobre a estrutura da frase. É que palavras não
criam idéias; estas, se existem, é que, forçosamente,
acabam corporificando-se naquelas, desde que se aprenda como
associá-las e concatená-las, fundindo-as em
moldes frasais adequados. Quando o estudante tem algo a dizer,
porque pensou, e pensou com clareza, sua expressão
é geralmente satisfatória.
Todos
reconhecemos ser ilusão supor – como já
dissemos – que se está apto a escrever quando
se conhecem as regras gramaticais e suas exceções.
Há evidentemente um mínimo de gramática
indispensável (grafia, pontuação, um
pouco de morfologia e um pouco de sintaxe), mínimo
suficiente para permitir que o estudante adquira certos hábitos
de estruturação de frases modestas mas claras,
coerentes, objetivas. A experiência nos ensina que as
falhas mais graves das redações dos nossos colegiais
resultam menos das incorreções gramaticais do
que da falta de idéias ou da sua má concatenação.
Escreve realmente mal o estudante que não tem o que
dizer porque não aprendeu a pôr em ordem seu
pensamento, e porque não tem o que dizer, não
lhe bastam as regrinhas gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário
de que possa dispor. Portanto, é preciso fornecer-lhe
os meios de disciplinar o raciocínio, de estimular-lhe
o espírito de observação dos fatos e
ensiná-lo a criar ou aprovisionar idéias: ensinar,
enfim, a pensar. |
Imaginamos
não haver muito o que se questionar, ao menos em seus aspectos
essenciais, nas colocações de Othon M. Garcia. Para
escrever, é preciso pensar. Não basta, portanto, ensinar
meramente a escrever, como se fosse um ato mecânico, que reproduzisse
apenas o bom entendimento de regras as mais diversas, das mais às
menos formais, da gramática à estilística.
É necessário ensinar a pensar.
Embora
muito pouco, ou talvez nada, haja a se contestar no que afirma Garcia,
muitos poderão complementar, no que se tornou senso comum:
para escrever, é preciso também ler, pois ler não
somente estimula a pensar e adquirir conhecimentos, mas igualmente
nos permite saber como escrever, seja por meio da simplicidade
e objetividade dos jornais e revistas, seja com o que têm
a nos ensinar os grandes mestres da literatura.
Não
há o que discordar. Mas da mesma maneira que o ato da escritura
– muito mais que o da mera escrita – se fundamenta no
pensamento, na reflexão, no conhecimento, para que então
resulte em expressão, a leitura não se restringe à
mera aquisição de informações, bem como
ao fortalecimento do raciocínio e à consolidação
de um estilo. Mais do que ler textos, faz-se necessário ler
o mundo, diz Paulo Freire (1921-1997), um dos mais notáveis
pensadores no campo da educação. Na carta intitulada
“Ensinar, aprender: leitura do mundo, leitura da palavra”,
do livro Professora sim, tia não: cartas a quem ousa
ensinar (Editora Olho D’Água, 16ª edição,
2006), publicado originalmente em 1993, Freire não apenas
propõe que se saiba ler o mundo, como relaciona essa postura
às ações de ensinar e aprender, em muito concomitantes:
| 
Paulo
Freire
|
[...]
não existe ensinar sem aprender e com isto
eu quero dizer mais do que diria se dissesse que o ato de
ensinar exige a existência de quem ensina e de quem
aprende. Quero dizer que ensinar e aprender se vão
dando de tal maneira que quem ensina aprende, de um lado,
porque reconhece um conhecimento antes aprendido e, de outro,
porque, observando a maneira como a curiosidade do aluno aprendiz
trabalha para apreender o ensinando-se, sem o que não
o aprende, o ensinante se ajuda a descobrir incertezas, acertos,
equívocos.
O
aprendizado do ensinante ao ensinar não se dá
necessariamente através da retificação
que o aprendiz lhe faça de erros cometidos. O aprendizado
do ensinante ao ensinar se verifica à medida em que
o ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente disponível
a repensar o pensado, rever-se em suas posições;
em que procura envolver-se com a curiosidade dos alunos e
dos diferentes caminhos e veredas, que ela os faz percorrer.
Alguns desses caminhos e algumas dessas veredas, que a curiosidade
às vezes quase virgem dos alunos percorre, estão
grávidas de sugestões, de perguntas que não
foram percebidas antes pelo ensinante. Mas agora, ao ensinar,
não como um burocrata da mente, mas reconstruindo
os caminhos de sua curiosidade — razão por que
seu corpo consciente, sensível, emocionado, se abre
às adivinhações dos alunos,
à sua ingenuidade e à sua criatividade —
o ensinante que assim atua tem, no seu ensinar, um momento
rico de seu aprender. O ensinante aprende primeiro a ensinar
mas aprende a ensinar ao ensinar algo que é reaprendido
por estar sendo ensinado.
O fato, porém, de que ensinar ensina o ensinante a
ensinar um certo conteúdo não deve significar,
de modo algum, que o ensinante se aventure a ensinar sem competência
para fazê-lo. Não o autoriza a ensinar o que
não sabe. A responsabilidade ética, política
e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar,
de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade
docente. Esta atividade exige que sua preparação,
sua capacitação, sua formação
se tornem processos permanentes. Sua experiência docente,
se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela
requer uma formação permanente do ensinante.
Formação que se funda na análise crítica
de sua prática.
Partamos
da experiência de aprender, de conhecer, por parte de
quem se prepara para a tarefa docente, que envolve necessariamente
estudar. [...] Enquanto preparação
do sujeito para aprender, estudar é, em primeiro lugar,
um que-fazer crítico, criador, recriador, não
importa que eu nele me engaje através da leitura de
um texto que trata ou discute um certo conteúdo que
me foi proposto pela escola ou se o realizo partindo
de uma reflexão crítica sobre um certo acontecimento
social ou natural e que, como necessidade da própria
reflexão, me conduz à leitura de textos que
minha curiosidade e minha experiência intelectual me
sugerem ou que me são sugeridos por outros.
Assim,
em nível de uma posição crítica,
a que não dicotomiza o saber do senso comum do outro
saber, mais sistemático, de maior exatidão,
mas busca uma síntese dos contrários, o ato
de estudar implica sempre o de ler, mesmo que neste não
se esgote. De ler o mundo, de ler a palavra e assim
ler a leitura do mundo anteriormente feita. Mas ler não
é puro entretenimento nem tampouco um exercício
de memorização mecânica de certos trechos
do texto. [...] Ler é uma operação inteligente,
difícil, exigente, mas gratificante. Ninguém
lê ou estuda autenticamente se não assume, diante
do texto ou do objeto da curiosidade, a forma crítica
de ser ou de estar sendo sujeito da curiosidade, sujeito da
leitura, sujeito do processo de conhecer em que se acha. Ler
é procurar buscar criar a compreensão do lido;
daí, entre outros pontos fundamentais, a importância
do ensino correto da leitura e da escrita. É que ensinar
a ler é engajar-se numa experiência criativa
em torno da compreensão. Da compreensão
e da comunicação.
|
É
verdade que Paulo Freire acrescia às suas propostas eminentemente
educacionais um viés ideológico por muitos condenado,
hoje e a seu tempo. Contudo, transcendendo o contexto da época
e o engajamento político paralelo às suas ideias no
campo da pedagogia, suas palavras são no mínimo fonte
para profundas reflexões: ensinar, aprender, ler, compreender,
comunicar. E acrescentemos o que nos evidencia Othon M. Garcia:
pensar, escrever – enfim, expressar-se.
A
relação entre tais palavras, bem como entre as ideias
a elas agregadas, é ainda mais profunda, por maiores e melhores
que tenham sido os esclarecimentos dos dois mestres a quem demos
palavra neste breve ensaio. A fim de ensejar novas ponderações
e não encerrar o assunto, abrimos espaço ao professor
Ciro Marcondes Filho, da Escola de Comunicações e
Artes da USP, uma autoridade nos estudos da comunicação,
palavra usada por Paulo Freire na carta que apresentamos:
|
A
comunicação realiza-se no plano da interação
entre duas pessoas, nos diálogos coletivos onde [...]
o acontecimento provoca o pensamento, força-o, onde
a incomunicabilidade é rompida e criam-se espaços
de interpenetração. Mas ocorre igualmente nas
formas sociais maiores de contato com objetos, especialmente
com objetos culturais das produções televisivas,
cinematográficas, teatrais, nos espetáculos
de dança, das performances, nas instalações,
a possibilidade de criação de situações
similares, inclusive em ambientes de relacionamento virtual.
|
Que
tenhamos comunicado algo. É o que esperamos.
Referências bibliográficas
FREIRE,
Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar.
16ª ed. São Paulo: Olho D’Água, 2006.
GARCIA,
Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna.
26ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.
MARCONDES
FILHO, Ciro. Dicionário da Comunicação.
1ª ed. São Paulo: Paulus, 2009.
* Mauro Celso Destácio,
jornalista formado pela Escola de Comunicações
e Artes (ECA) da USP, é especialista em divulgação
científica pelo Núcleo e Cátedra Unesco José
Reis de Divulgação Científica da mesma Escola,
de cujas publicações foi editor por sete anos. Professor
universitário e autor de Áreas verdes em São
Paulo: retratos, cenários e paisagens (São Paulo:
Nativa, 2004), é coordenador executivo da .
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