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Ciência e religião interagem e explicam a existência do universo Sonia Bramante* “Se
os fatos não se encaixam na teoria, modifique os fatos.”
A ciência nos diz que o Big Bang, o ponto inicial para a vida no universo, deu-se há 12 bilhões de anos. Já os relatos bíblicos nos mostram que o universo não tem nem 6.000 anos de existência. Essas divergências entre ciência e religião são consideradas grandes paradigmas dos dias atuais. Será que há consenso nessas questões? Será que é correto afirmar que a ciência lida com o mundo objetivo, utilizando a razão e a experimentação, enquanto a religião lida com o mundo espiritual, utilizando a fé e a ritualística? Onde elas se encontram, para explicar, de forma clara, as perguntas que não querem calar: “De onde viemos?” ou “Para onde vamos?”? Em reportagem da revista eletrônica ComCiência, o professor de história da ciência José Luiz Goldfarb, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, explica essa divergência de datas, mostrando que ambas estão falando do mesmo período, porém de formas diferentes.
Goldfarb utiliza as idéias de Aryeh Kaplan em seu artigo “A idade do universo”. Como sábio tradicional do judaísmo, Kaplan busca na literatura rabínica clássica afirmações relevantes sobre esse assunto, um tema que ele considera aberto à discussão. Significativamente, ele encontra um conceito muito importante, que menciona os ciclos sabáticos (shemitot), de 7.000 anos. E, como existem sete ciclos sabáticos no jubileu, o mundo está destinado a existir por 49.000 anos. Kaplan expõe muitas citações da literatura rabínica, concluindo que o universo tinha 42.000 anos quando Adão foi criado. Kaplan introduz, nesse ponto de sua argumentação, a interpretação sobre a idade do universo elaborada pelo rabino Isaac de Akko (1250-1350), no manuscrito Ozar ha-Hayyim, cujos argumentos – que se referem basicamente à diferença entre anos terrestres e anos celestes – nos permitem concluir que o universo teria 42.000 x 365.250 anos. Fazendo a multiplicação, obtemos 15.340.500.000 anos, uma soma muito significante. Estamos falando, segundo Isaac de Akko, de 15 bilhões de anos, uma cifra bastante semelhante àquela oferecida pela ciência e a teoria do Big Bang. Aqui nós temos a mesma cifra aparecendo numa fonte de estudos da Bíblia escrita há mais de 700 anos, na Idade Média! No blog Mensageiro Notícias, em novembro de 2008, D. António Montes, bispo da Diocese de Bragança-Miranda, em Portugal, constituiu o mote de mais um “café de ciência”, promovido pelo Centro de Ciência Viva de Bragança, explicando que ciência e religião não pertencem a campos opostos, mas diferentes, tratando a ciência de explicar o “como” e a religião de apresentar os “porquês”. O mundo pode ter surgido a partir da expansão da matéria, e a narrativa bíblica da criação ser uma forma poética de a apresentar. Fundamental para a religião é dizer que o mundo foi criado por Deus e é bom. A ciência pode explicar como surgiu, mas não está no seu domínio explicar qual a razão da criação. Mas, se assim for, tendo em vista que o conhecimento religioso é dogmático, não testável e depende de crença/fé e que o conhecimento científico é replicável, fidedigno, generalizável, ciência e religião são divergentes ou convergentes? Na opinião do professor Frank Usarski, do programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da PUC/SP, a divergência mais marcante é que cientistas empíricos não trabalham com conceitos metafísicos. Quer dizer, eles não levam em conta um nível extraempírico. Isso não significa que eles neguem a existência desta dimensão do “ser”, mas tem a ver com a posição metodológica em que se considera cientificamente irrelevante a questão sobre a “última realidade”, sobre “o absoluto”, sobre algo que transcende as esferas “relativas”. Em entrevista aos alunos da pós-graduação, em julho de 2002, o professor completa: “Religião e ciência são ambas sistemas de compreensão e interpretação do mundo. A teoria de ‘big-bang’ e a doutrina cristã de criação têm o mesmo objetivo: responder a questão de onde vem nosso universo. No decorrer do processo de secularização, ou seja, na medida em que a ciência como uma forma específica de compreensão do mundo ganhou cada vez mais aceitação coletiva na cultura ocidental, a interpretação cosmológica religiosa tem perdido sua plausibilidade para a maioria da população dos países correspondentes. Devido ao ‘triunfo’ das ciências exatas na modernidade é inevitável aceitar, do ponto de vista de um indivíduo religioso, que a doutrina bíblica de criação seja ‘apenas’ uma imaginação simbólica de ‘verdadeiros’ eventos cósmicos. Neste sentido podem coexistir na consciência moderna os dois referenciais, ou seja, os relevantes textos bíblicos e as teorias astrofísicas atuais.” No site do livro Ciência, Religião e Desenvolvimento - Perspectivas para o Brasil, organizado por Iradj Roberto Eghrari, há um trecho que diz: “Todas as questões de moralidade contidas na imutável lei espiritual de todas as religiões são logicamente exatas. Se a religião fosse contrária à razão lógica, então deixaria de ser religião para ser simplesmente tradição. Religião e ciência são duas asas sobre as quais a alma humana pode progredir. [...] é perfeitamente evidente que a ciência é luz e, sendo, a religião, verdadeiramente assim chamada não se opõe ao conhecimento. [...] Mas a religião que não caminha de mãos dadas com a ciência está, ela própria, nas trevas da superstição e da ignorância.” Com isso, entende-se que a ciência deve estar em harmonia com a religião, pois as religiões pregam a bondade, a justiça, a honestidade, a moral e a ética e são pontos que também devem nortear a ciência, como forma de explicar e transformar a existência humana. O caminho que a ciência busca é sempre o progresso de uma melhor compreensão. E essa compreensão só é possível quando se tem a capacidade de não se prender a mitos, dogmas ou paradigmas e manter a mente aberta para novos aprendizados. A grande diferença entre o homem e os animais é a sua capacidade inovadora que se faz por meio da fé raciocinada e do intelecto.
GARCIA, Maria. Os limites da ciência: a dignidade da pessoa humana, a ética da responsabilidade. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004. Na
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