Ócio e negócio na prosa machadiana

Jean Pierre Chauvin*

Em tempos de crise de economia e crise de identidade, Machado soa atualíssimo... sutilmente, é claro. Ao leitor machadiano, não soará estranha a afirmação de que o autor se especializou em retratar homens e mulheres de ócios e negócios, fincados nas condições socioeconômicas e culturais do segundo Império brasileiro.

Esquemas mais ou menos escusos, diga-se. De fato, os enredos que mais trouxeram celebridade ao escritor foram justamente aqueles a retratar sem piedade ou juízo de valor as máscaras sociais de homens ilustres e mimados e de mulheres submissas na aparência, mas dominadoras, quando assumiam os negócios financeiros de seus maridos.

Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) traz Virgília (vir > homem): mulher que se recusa a casar com o peralta e imaturo Brás, em função da oferta mais lucrativa e que asseguraria maior status, feita pelo Deputado Lobo Neves.


Os enredos que mais trouxeram celebridade a Machado de Assis foram justamente aqueles a retratar sem piedade ou juízo de valor as máscaras sociais de homens ilustres e mimados e de mulheres submissas na aparência, mas dominadoras, quando assumiam os negócios financeiros de seus maridos.

Quincas Borba (1890) apresenta-nos Rubião, ex-professor que se torna capitalista de uma hora para outra graças à herança recebida de seu amigo ensandecido. Apaixona-se por Sofia (do grego, sabedoria). Ela se associa ao marido Cristiano Palha para se aproveitar da paixão de Rubião, levando-o à loucura e à falência.

Em Dom Casmurro (1899) está a mais famosa trama machadiana. Capitu, menina simples, vizinha do rico e mimado Bento Santiago, casa-se com o rapaz e muda de vida. Com o passar do tempo, devido aos ciúmes do marido (agora casmurro), o casamento acaba traumaticamente e ela morre no exterior.

Muitos escritores sugerem que o estudo da obra de Machado se deve pautar nas relações sociais, ambientadas invariavelmente no Rio de Janeiro, corte de nosso Império. “Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis”, conclui Brás Cubas; Capitu consegue tudo o que quer “aos saltinhos”, julga Bento Santiago.

Num país em que se vive sob a “égide do favor” (Roberto Schwarz); nas cenas em que detalhes aparentemente inexpressivos, como a roupa ou certos gestos marcam as diferenças (Augusto Meyer, Eugênio Gomes); em que as casas, ruas e locais públicos definem os papéis desempenhados ao longo de uma jornada (Roberto DaMatta); quando se percebe uma constelação de tipos sociais imiscuídos a figuras com ou sem escrúpulos (Alfredo Bosi e Raymundo Faoro), a obra de Machado não só retrata o Rio de Janeiro sob sua ótica: equipara certas picuinhas e disputas ridículas à escala universal, sempre com o lastro de nossa história cultural e política (John Gledson, Brito Broca, Astrojildo Pereira).

Afinal, “a vida é uma ópera”, diz certo músico italiano ao protagonista de uma biografia de título imponente – Dom – e apelido antipático – Casmurro. Estamos diante de literatura séria. Machado afirma, como se não o pretendesse, que uns e outros não se relacionam por acaso ou em função dos afetos, mas em razão dos cálculos: o sorriso dado no momento mais adequado; a exibição discreta de certa parte do corpo; a barganha social, em pleno regime escravocrata; a falência da moral como contraparte de um bom trocado.

Acima de tudo, certas personagens machadianas ilustraram intrincadas relações de poder que vislumbramos ainda hoje. Basta nos revezarmos frente às estações de rádio, canais de TV ou sites da internet.


* Jean Pierre Chauvin é professor de literatura, português e redação no Colégio da Polícia Militar, em São Paulo, docente na Fatec (Faculdade de Tecnologia) de São Caetano do Sul e autor de
O Alienista: a teoria dos contrastes em Machado de Assis (São Paulo: Reis, 2005). É coordenador pedagógico da Legulus Cursos de Difusão Cultural.


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