Grande Sertão: Veredas e “Young Goodman Brown”: duas jornadas, uma dúvida

Maria Márcia Matos Pinto*

Resumo
O romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e o conto “Young Goodman Brown”, de Nathaniel Hawthorne, apesar da distância temporal e espacial que os separa, lidam com alguns dos grandes questionamentos existenciais do ser humano: o que é o bem, o que é o mal, qual deles de fato rege a natureza humana? Ao desenvolver suas obras, os dois autores lançam seus protagonistas em jornadas que deixam de ser meros deslocamentos espaciais para se tornarem percursos existenciais, onde ambos são levados a se defrontar com a figura do mal. A partir desses insólitos confrontos, Riobaldo e Goodman Brown passarão a viver um conflito interior no qual a dúvida se tornará marca indelével em suas vidas. Este artigo procurará, pois, apresentar os meandros dos encontros vivenciados pelas duas personagens no sentido de discutir a visão do bem e do mal que esses autores constroem.

Abstract
The novel Grande Sertão: Veredas, by Guimarães Rosa, and the short story “Young Goodman Brown”, by Nathaniel Hawthorne, in spite of the time and space which separate them, deal with some of the greatest human existential questions: what is good, what is evil, which of them really controls human nature? So, in developing their works, the two authors throw their protagonists into journeys which are more than mere trips; they are in fact existential journeys in which both are led to face evil. After the unusual meetings they have, Riobaldo and Goodman Brown will live an inner conflict in which doubt will become an indelible mark in their lives. Thus, this paper will show the inner side of the meetings both characters go through in order to discuss the view of good and evil the two authors present.



 

O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. (Grande Sertão: Veredas, p. 44)1

Destino: palavra ligada à vida dos seres humanos de todas as épocas, de todos os lugares. A partir dessa idéia, que muitos acreditam determinar a existência de cada indivíduo, é possível aproximar duas obras, dois autores, duas personagens pertencentes a contextos diversos da história literária, já que a distância entre Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, e “Young Goodman Brown” (1835), de Nathaniel Hawthorne, não revela seus limites apenas pelo momento histórico e literário a que as duas obras pertencem. A forma escolhida pelos dois escritores para plasmarem suas histórias também é diferente: o romance em Rosa e o conto em Hawthorne. Contudo, ambos adentraram um universo que supera as condições de tempo e espaço, embrenhando-se em alguns dos mistérios da natureza humana que, não importa quanto o conhecimento do homem se aprimore em termos científicos e tecnológicos, vão constantemente ser alvo das suas especulações existenciais. Desse modo, as mesmas questões fundamentais vão permear tanto o romance como o conto: o que é o bem? o que é o mal? qual deles de fato rege a natureza dos seres? como reconhecer um e outro?

A partir desses questionamentos, as criações literárias de Rosa e Hawthorne farão surgir ao leitor os aspectos míticos e psicológicos que se entrelaçam no sentido de revelar a dúvida que perturba a existência dos protagonistas Riobaldo e Goodman Brown, ambos levados a confrontar a figura do mal. Obviamente, o alcance da discussão levada a cabo por Hawthorne em seu conto torna-se bastante limitado diante da amplitude das especulações metafísicas presentes no Grande Sertão. Deve-se lembrar que “Young Goodman Brown” pertence a um momento da carreira do autor norte-americano em que ele ainda não havia revelado todo o seu potencial literário. Mesmo assim, o conto deixa transparecer uma aguçada percepção dos elementos psicológicos que definem o caráter e o comportamento individuais, considerando particularmente a influência do Puritanismo no desenvolvimento da mentalidade que norteava as relações sociais na Nova Inglaterra desde a chegada dos primeiros puritanos, uma mentalidade construída a partir de conceitos estritos de bem e mal. Hawthorne, cujos ancestrais pertenceram aos fundadores puritanos das colônias americanas, sentiu profundamente o peso dos fundamentos religiosos abraçados por sua família, o que o levou a questionar a estreiteza desses conceitos diante da complexidade que envolve a natureza humana. Assim, os aspectos que definem o bem e o mal foram alvo freqüente de especulação na sua obra2, algo que o escritor brasileiro também explorou nas suas construções literárias.

Considerando, pois, as limitações do conto em relação ao romance, esta análise centrar-se-á no episódio do Grande Sertão: Veredas que está diretamente relacionado com a situação vivida pelo protagonista da narrativa de Hawthorne, ou seja, o momento em que Riobaldo segue para as Veredas Mortas com a intenção de fazer o pacto com o demônio. Para isso, esta análise foi dividida em três partes, isto é, os três momentos que definem a passagem de uma situação inicial para a transformação que se opera nas personagens.

1. A jornada


O norte-americano Nathaniel Hawthorne (1804-1864), autor de “Young Goodman Brown”.

Comecemos por “Young Goodman Brown”3. O início da narrativa aponta para uma referência espacial bem demarcada – a cidade de Salém, onde Hawthorne nasceu e onde existia um severo tribunal para julgamento de atos de bruxaria, do qual seu pai fez parte. A primeira cena mostra o protagonista pronto para uma viagem despedindo-se de sua jovem esposa Faith. Aqui é importante observar os termos usados por uma e outra personagem com relação ao trajeto a ser cumprido. A esposa de Brown o chama de journey, palavra cujo significado implica desenvolvimento, mudança, enquanto o esposo prefere usar o termo errand, ou seja, a ida a algum lugar para cumprimento de um dever. Como se verá, a jornada de Brown implica os dois sentidos. Faith roga ao marido que postergue a viagem, mas ele não cede, pois há a necessidade de ela ser feita entre o crepúsculo daquele dia e o amanhecer do dia seguinte. O que será percebido alguns parágrafos adiante é que a jornada parece ter sido anteriormente planejada, pois, ao entrar na floresta, Goodman Brown encontra-se com um homem que já estava a sua espera e que se queixa de sua demora. Isto dá a impressão de que ambos são velhos conhecidos, o que é reforçado pelo fato de Brown, por duas vezes, chamá-lo de amigo.

Eles caminham lado a lado, apesar da hesitação do esposo de Faith, que se move lentamente e que a certa altura quer desistir da viagem, apesar das constantes expressões de encorajamento proferidas pelo companheiro. Este, por sua vez, é ironicamente descrito como alguém que fisicamente se parece com o próprio Goodman, ora assemelhando-se a seu pai, ora a seu avô, sendo que a catequista da cidade, ao cruzar com ele no meio do caminho, reconhece-o como sendo este último, após, num primeiro instante de susto, chamá-lo de “O diabo!”.

O espaço da jornada – a floresta – é particularmente digno de atenção, pois está imbuído de um clima de mistério. A estrada que leva ao seu interior é monótona, dominada por árvores sombrias que a escurecem, reino da solidão, onde pode haver “a devilish Indian behind every tree” (p. 1034) [um índio demoníaco atrás de cada árvore], segundo o próprio Goodman. Esse espaço vai, ao longo da narrativa, se constituindo em ambiente onírico, já que dá a impressão de pairar além de coordenadas espácio-temporais precisas, onde os seres assumem formas por vezes indefinidas. Nesse sentido, ele se aproxima do “sertão” de Rosa, lugar mítico e místico, de limites indefinidos – “O sertão é do tamanho do mundo.” (p. 52), “Sertão é o sozinho. [...] Sertão: é dentro da gente.” (p. 199), como diz Riobaldo –, regido por leis próprias, com terras de natureza em estado puro e onde é possível encontrar seres humanos que parecem ter saído dos estádios pré-históricos da humanidade, caso este dos catrumanos.

Assim, tanto a floresta de Hawthorne como o “sertão” de Rosa formam um contraponto com o mundo urbano, onde supostamente impera a racionalidade, não havendo neste último, por isso, a possibilidade das experiências enigmáticas pelas quais os protagonistas de ambas as obras passam.

Um dado ainda a ser observado com relação ao conto é o da escolha dos nomes das personagens. O nome Goodman (bom homem), por exemplo, liga-se à idéia do bem, assim como o de sua esposa Faith (Fé), que, com toda sua conotação religiosa, torna-se fundamental no conjunto expressivo da narrativa, conforme apontarei adiante. A figura que acompanha Brown na jornada não é explicitamente nomeada, e, pelo caminho, o protagonista vai perceber a presença de algumas das pessoas mais devotas da cidade: a velha e piedosa dama que o catequizou, Goody Cloyse, o pastor da igreja de Salém e o diácono Gookin. Há ainda a bruxa Goody Cory, mencionada pela catequista. Chama a atenção o fato de que a raiz dos nomes apresentados, com exceção do de Faith e de uma certa Martha Carrier, que tinha recebido do demônio a promessa de tornar-se a rainha do inferno, liga-se à palavra “good”, bom ou bem em inglês. O pastor não é nomeado, o que permite estabelecer um paralelismo entre ele e o homem que Brown encontra na floresta, e que, posteriormente, comandará a cerimônia do batismo negro. Desse modo, os nomes aparecem como um dos elementos da construção alegórica que permeia o conto. Isto não significa, entretanto, que este se reduza a uma alegoria simplista, como aponta Fogle (1952), devido à ambigüidade e à ironia que podem ser entrevistas tanto nesse ato de nomear como na realização da obra de maneira geral.

Não me deterei na questão dos nomes em Grande Sertão, assunto amplamente discutido pela crítica rosiana. Apenas gostaria de lembrar a relação que pode ser estabelecida entre Diadorim e a palavra diabo, como apontado por Augusto de Campos4, e a de Hermógenes com Hermes, o mensageiro dos deuses, responsável por conduzir as almas ao inferno.

Quanto à jornada, no romance de Rosa ela é o cerne da construção diegética. As “travessias” de Riobaldo podem ser registradas em três níveis principais: a travessia espacial, feita pelas veredas do sertão; a travessia existencial, representada pelas experiências de vida do herói; e a travessia pela linguagem, pela qual Riobaldo reelabora a jornada de vida, buscando a compreensão dos fatos que marcaram sua história.

O que interessa mais de perto neste confronto é o trajeto que ele faz às Veredas Mortas para estabelecer o pacto. Ao contrário do que acontece com Goodman Brown, o encontro de Riobaldo não tem dia certo. Na verdade, ele hesita muito antes de seguir o caminho que o levará à encruzilhada: “E veio mesmo outra manhã, sem assunto, eu decidi comigo: – É hoje... Mas dessa vez eu ainda remudei. Sem motivo para sim, sem motivo para não. Delonguei deveras.” (p.262) Essa hesitação de Riobaldo está muito próxima daquela que Brown revela na dificuldade que tem para cumprir o caminho e na sua tentativa de desistir antes de chegar ao destino de fato.

Chega, entretanto, o dia em que Riobado sente a necessidade de levar a cabo o encontro, pois era preciso dar termo ao impasse que se revelava na falta de atitude de Zé Bebelo de comandar os jagunços para a batalha final com o Hermógenes. Ele vai então à procura de um lugar já pré-estabelecido em seu imaginário, um imaginário advindo de tempos imemoriais, ligado à visão de seres malignos e aos cerimoniais diabólicos, como atesta a semelhança entre os espaços noturnos do conto e do romance:

 

Lugar meu tinha de ser a concruz dos caminhos. A noite viesse rodeando. Aí friazinha. E escolher onde ficar. O que tinha de ser melhor debaixo dum pau-cardoso – que na campina é verde e preto fortemente, e de ramos muito voantes, [...] como nenhuma outra árvore nomeada. Ainda melhor era a capa-rosa – porque no chão bem debaixo dela é que o Careca dança, e por isso ali fica um círculo na terra limpa, em que não cresce nem um fio de capim; e que por isso de capa-rosa-do-judeu nome toma. Não havia. A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão deu. Talentos de lua escondida. (p. 267)

2. O encontro com o mal


O brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967), autor de Grande Sertão: Veredas.

O encontro de Goodman Brown com o diabo se dá assim que ele entra na floresta, pois, apesar de a princípio pairar dúvidas sobre a identidade do ente que acompanha a personagem, gradualmente, ele vai tomando contornos mais definidos a partir de indícios dispersos pelo texto, como, por exemplo, o seu cajado em forma de uma grandiosa serpente negra, apontando, assim, para a figura demoníaca. Porém, ele só se revelará completamente no sabá negro, ritual este que vai guardar semelhanças com o culto realizado nos templos puritanos e no qual o protagonista irá perceber a participação dos maiores representantes religiosos de sua comunidade.

O conto segue num crescendo de tensão. Uma das cenas marcadas por extrema comoção da parte de Goodman se dá quando, ao começar a distinguir as vozes das pessoas que se encontram no interior da floresta, ele percebe que a jovem a ser batizada no ritual negro daquela noite é sua esposa. Ele chama por ela três vezes numa confusão de tristeza, raiva e terror, e houve então um grito sufocado por vozes e gargalhadas. Nesse momento, a nuvem negra que cobria o céu desaparece, deixando-o claro e silencioso, e Brown pode então ver um dos laços de fita cor-de-rosa usados por Faith esvoaçando até ficar preso num galho de árvore. Esses laços são particularmente significativos no contexto da narrativa, pois são mencionados diversas vezes, e causam certo estranhamento por serem usados por uma mulher já casada, apesar de sua juventude. Eles acabam se transformando, então, numa alegoria da ingenuidade que cerca a “Fé”, o que é enfatizado logo depois quando, na cena citada, Goodman toma nas mãos aquele que ficou preso no galho da árvore e diz: “My Faith is gone! [...] There is no good on earth; and sin is but a name. Come, devil; for to thee is this world given.” (p. 1038) [Minha fé se foi! (...) Não há bem na terra; e o pecado é só uma palavra. Venha, demônio; pois a ti este mundo foi ofertado.] Esta frase pode ser vista como o ponto culminante da transformação que se opera no caráter do protagonista. É um momento de perda da inocência, quando ele percebe que o mal está presente inclusive naquilo que ele tomava como mais certo e puro, ou seja, a sua “Fé”, no duplo sentido da inocente esposa a quem dedica seu amor e da crença na religião à qual aprendeu a devotar-se.

Depois dessa cena, o que se vê é a estrada abrindo-se de fato para o mal e, daí a pouco, ele terá a oportunidade de contemplar o ritual diabólico. Ali ele tornará a ver sua esposa e ainda tentará, num último ímpeto de esperança e desespero, recobrar a crença no bem. Assim, ele diz: “Faith! Faith! [...] look up to heaven, and resist the wicked one.” (p. 1041) [Fé! Olhe para o céu, e resista ao mal.]

Enquanto no conto de Hawthorne o encontro com o mal se dá como uma espécie de provação à qual o protagonista deverá submeter a sua fé, no romance de Rosa, Riobaldo resolve encarar o diabo por questões pragmáticas. Ele pretende vencer o Hermógenes, um pactário, e acredita que só outro pactário poderá exterminar aquele que é equiparado ao próprio demônio. Contudo, esta é apenas uma das razões do encontro. Em outros níveis narrativos, defrontar-se com o ser maligno se mostra como a tentativa do herói de vencer o medo inerente à condição humana e a busca do conhecimento do que o mal de fato é. “Quem é que era o Demo, o Sempre-Sério, o Pai da Mentira?” (p. 267), pergunta Riobaldo.

Porém, se Goodman Brown tem a visão do demônio como homem que se metamorfoseia em pessoas próximas do seu convívio, o que reflete a ênfase dada pelos primeiros puritanos da América à corrupção e ao pecado que cercam a alma, mostrando, assim, o ser humano como propenso ao mal e indigno da graça de Deus, Riobaldo traz um imaginário demoníaco mais primitivo, ligado às crenças folclóricas, esperando ver um ser “soforma dalgum bicho de pêlo escuro, por entre chorinhos e estados austeros, e daí erguido sujeito diante de homem, e se representando, canhim, beiçudo, manquinho, por cima dos pés de bode, balançando chapéu vermelho emplumado, medonho como exigia documento com sangue vivo assinado, e como se despedia, depois, no estrondo e forte enxofre.” (p. 262) No entanto, ele não vê nada, e a dúvida sobre a realização ou não do pacto passará a atormentar a sua existência a partir da sua ida à encruzilhada das Veredas Mortas.

3. O destino

O que se dá após ambos os encontros? Qual o destino dos dois protagonistas?

Como termo das jornadas, Goodman Brown, depois do apelo desesperado para que Faith resista ao mal, vê-se sozinho no meio da floresta, como se acabasse de despertar de um sonho, ou melhor seria dizer de um pesadelo. Quanto a Riobaldo, mesmo não tendo visto diabo algum, apesar dos seus insistentes chamados, vê-se tomado por desânimo e cansaço, como se retornasse de esferas transcendentais: “Aquilo foi um buracão de tempo.” (p. 270) Ambas as personagens têm sensações parecidas após suas insólitas experiências com o mal. Brown aproxima-se cambaleante da rocha onde o sacerdote se postou para a realização do ritual macabro e a encontra fria e úmida. Riobaldo sente-se dominado por um “frior de dentro e de fora” (p.270), que o leva a prostrar-se na rede tomado de calafrios quando chega ao acampamento.

Como vida futura, o destino de ambos toma rumos diferentes. Desde seu retorno a Salém, na manhã seguinte, Goodman torna-se um homem cético, particularmente indignado com as atitudes do pastor, do diácono Gookin e da catequista Goody Cloyse, que a seu ver apenas zombam da fé alheia. Porém, como denunciar os atos daquelas pessoas? Como ter a certeza de que tudo não passou de um sonho? Como saber até que ponto o mal determinava a existência delas, a de Faith e até a sua própria? O seu destino a partir de então será o de viver sob a égide da amargura, proveniente da dúvida que o atormentará pelo resto da longa vida que terá. Sobre sua morte, o narrador frisa que a família “carved no hopeful verse upon his tombstone, for his dying hour was gloom.” (p. 1042) [não gravou qualquer verso de esperança na pedra tumular, pois a hora de sua morte foi sombria.]

Riobaldo tem uma trajetória diferente após o desejado encontro, que, tendo ocorrido ou não, levou-o a superar seus medos. Ele consegue destituir Zé Bebelo da chefia do bando, assumindo seu lugar. A verdade é que ele passa a agir como se houvesse interiorizado um poder fenomenal, uma força que lhe permitisse dar vazão aos seus mais obscuros instintos. Contudo, dentro dele parece travar-se uma guerra, pois há algo que não deixa o mal prevalecer, como fica visível no caso de nhô Constâncio Alves, o homem com quem ao acaso seu bando cruza na estrada. Acreditando deter o poder de vida e morte sobre as pessoas, ele sente-se forçado a matar o pobre homem, depois de ter ajudado a dar vida a uma criança. Mas, após questionar-se sobre se o demo era ele mesmo, acaba por encontrar a “doçura de Deus” e clamar pela Virgem, o que o leva a armar um estratagema que livra da morte nhô Constâncio, seu cachorro e seu cavalo.

A guerra interior se transforma em exterior no episódio do Paredão, quando morrem o Hermógenes e Diadorim, acirrando a dúvida sobre a veracidade do pacto. Teria sido o sangue inocente de Diadorim o preço cobrado para a destruição do Hermógenes? É essa dúvida que o leva a querer refazer a trajetória, primeiro a das Veredas Mortas, lugar que não consegue reencontrar, mais uma vez levantando incertezas a respeito do pacto, e depois a de vida através do universo do logos. Este último trajeto lhe permite compreender muito do que se passou, e, ao final, numa visão até reconfortada, bem diferente da de Goodman, ele pode dizer: “minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? [...] Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.” (p.385) Ou seja, Riobaldo, após o evento narrativo, conclui que existem de fato homens imperfeitos e vida para ser vivida, com erros, acertos e muitas dúvidas.


Notas

1. Todas as citações do romance são extraídas da seguinte edição: Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

2. Particularmente na sua melhor produção literária, o romance The Scarlet Letter (1850).

3. Todas as citações do conto são extraídas da seguinte edição: Hawthorne, Nathaniel. The Complete Novels and Selected Tales. New York: The Modern Library, 1937, pp. 1033-1042.

4. Segundo Eduardo F. Coutinho (1991, p. 206-207): “A ambigüidade de Diadorim, cuja verdadeira identidade só se revela no momento da morte, e os sentimentos contraditórios que ela desperta em seu companheiro, já se acham sugeridos pelo seu próprio nome, que o crítico Augusto de Campos divide do seguinte modo:

a) Dia + adora
                    + im
b) Diá + dor

A forma reduzida -im do sufixo diminutivo -inho, -inha aplica-se em português a nomes tanto de homem quanto de mulher. A primeira linha (a) corresponde a uma série de conotações positivas, sugeridas pelo substantivo ‘dia’ e a forma verbal “adorar’; a segunda linha (b) expressa todas as conotações negativas presentes nos substantivos ‘diá’ (uma das formas reduzidas da palavra ‘diabo’, muito comum em certas áreas do interior do Brasil), e ‘dor’.”


Referências bibliográficas

COUTINHO, Eduardo F. “Guimarães Rosa e o processo de revitalização da linguagem”. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. 2a. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991, pp. 203-233.

FOGLE, Richard Harter. Hawthorne’s fiction: the light and the dark. Norman: University of Oklahoma Press, 1952.

HAWTHORNE, Nathaniel. “Young Goodman Brown”. In: HAWTHORNE, N. The complete novels and selected tales. New York: The Modern Library, 1937, pp. 1033-1042.

ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.


* Maria Márcia Matos Pinto
é doutora pela USP na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. É professora de Comunicação e Expressão e coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento de Projetos de Pesquisa na FATEC-São Caetano do Sul.


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