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Queimadas
e mau uso da energia: os inimigos ambientais do Brasil Maria Vitoria Vélez*
Combater o desmatamento e adotar uma cultura de eficiência energética são as principais estratégias para reduzir as emissões brasileiras de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, mas é preciso que haja um reforço na integração das políticas já adotadas no País, afirmam especialistas. “É preciso haver um esforço coletivo da sociedade”, alertou Karen Suassuna, analista de Mudanças Climáticas do WWF-Brasil. “Agir é só uma questão de tempo.Quanto mais demorarmos, mas caro vai ficar” enfrentar este desafio, ressaltou. Segundo o WWF, em 2007 o Brasil emitia diariamente 6 milhões de toneladas de carbono na atmosfera. No país – lembrou Karen –, onde a geração de energia é maciçamente baseada na hidreletricidade, uma fonte limpa, dois terços das emissões se devem ao desmatamento da Amazônia. “O sistema de produção na Amazônia tem que mudar”, disse ela, em alusão à prática de desmatar as florestas da região para a introdução do agronegócio, recomendando ao governo federal que integre estados e municípios em seus esforços no combate ao desmatamento. Integração é a palavra de ordem nessa questão, de acordo com a coordenadora do escritório no Brasil do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Cristina Monteiro.
Embora elogie o programa de combate ao desmatamento do governo e a capacidade do país em monitorar o que acontece na Amazônia, Monteiro afirmou que o que preocupa no país é a integração das políticas de apoio na implementação deste programa. Segundo números do Ministério do Meio Ambiente, a estimativa da área desmatada na Amazônia no período entre agosto de 2005 e o mesmo mês de 2006 foi de 13.100 quilômetros quadrados, o que representou uma redução de 30% com relação ao período anterior. Apesar do esforço louvável do governo, Cristina disse que é preciso ter grupos políticos de ação que atuem na regularização fundiária, na mineração, em modelos de certificação de madeira, no controle do avanço da fronteira agrícola. Sobre este ponto, alertou, é preciso definir quais mecanismos o governo vai adotar para autorizar este avanço ou determinar seu recuo, bem como incorporar os riscos ambientais na concessão de créditos. Fontes renováveis X Energia nuclear Conter os efeitos da contaminação no clima do planeta não se restringe ao que acontece na Amazônia e requer um conjunto de soluções, advertiu Karen Suassuna, lembrando que o uso consciente da energia é outra importante ferramenta. “A eficiência energética tem um papel principal neste ponto, pois trabalha com base no uso e não na oferta de energia. O uso da energia tem que ser eficiente”, explicou.
Para Karen, o Brasil deve concentrar suas atenções nas fontes renováveis, que têm um grande potencial inexplorado, deixando de lado a energia nuclear, cuja gestão dos dejetos é um problema no mundo todo. Citando números do Ministério das Minas e Energia, a ambientalista lembra que em 2005 o Brasil tinha um potencial de geração de energia com base apenas no bagaço da cana-de-açúcar (biomassa) de 8.000 MW, quando apenas 1.500 MW foram aproveitados. O potencial de produção da energia a partir do vento (eólica) no Brasil é ainda maior, acrescenta Karen: 143.000 MW, quando o explorado atualmente corresponde a 0,25% deste total. Mas Leonam dos Santos Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, empresa que controla as usinas nucleares no Brasil, defende a necessidade de se investir em energia nuclear, mesmo considerando a exploração de outras fontes renováveis. O governo brasileiro aprovou a construção de Angra 3, usina com potencial para gerar 1350 Mw, ao custo de mais de R$ 7 bilhões. “Uma política energética inteligente terá que conciliar múltiplos interesses – políticos, econômicos, sociais, ambientais – e dificilmente se pode basear em idéias simplistas como as daqueles que pregam uma solução única e supostamente ‘milagrosa’ para o problema, seja biomassa, eólica, hídrica, nuclear, solar, gás natural ou qualquer outra que entre ‘na moda’. [...] A fonte hídrica permanecerá durante muitas décadas como a principal componente do porfólio de fontes de geração do sistema elétrico brasileiro. Deverá, entretanto, ser complementada por fontes térmicas – urânio, carvão, biomassa, gás natural e óleos derivados de petróleo – nesta ordem de importância.” Segundo Guimarães, a energia nuclear tem vantagens sobre as outras fontes renováveis pelo baixo custo e por não estar sujeita às condições de sazonalidade, como chuvas e vento, por exemplo. “A desejável expansão da contribuição de outras fontes renováveis – eólica, solar, biomassa – deverá ser a maior possível dentro das limitações técnicas e econômicas específicas a cada uma delas. Porém elas não reduzirão a necessidade da contribuição térmica. Todas as fontes renováveis dependem dos ciclos da natureza e requerem regulação para os períodos em que não estão plenamente disponíveis. Dentre as opções térmicas, o urânio não tem outro uso fora a geração térmica. O Brasil possui a 6ª maior reserva de urânio do mundo, tendo prospectado apenas 1/3 de seu solo – e apenas a camada superficial (100 metros). Temos o domínio de todas as etapas do ciclo de produção do combustível nuclear e capacitação em projeto, construção e operação de usinas nucleares” e “o custo do combustível nuclear representa cerca de 10% do preço do MWh [megawatt/hora] gerado”, afirma.
Além disso, continua, “a disponibilidade do urânio como combustível – que permite geração confiável de uma energia ambientalmente limpa, que não libera CO2 na atmosfera, não produz efeito estufa e que pode ser produzida próximo aos grandes centros consumidores – é fator relevante”. Quanto à questão dos dejetos, Guimarães afirma que “existem atualmente tecnologias seguras para o gerenciamento de rejeitos de média e baixa atividades. Esses rejeitos são acondicionados em embalagens metálicas, testadas e qualificadas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e transferidos para um depósito inicial, construído no próprio sítio da Central Nuclear”. Segundo ele, “a política vigente no Brasil estabelece que, até 2012, o depósito inicial desses rejeitos seja construído próximo às fontes produtivas e tenha a guarda de responsabilidade da Eletronuclear. Após 2012, os rejeitos serão transferidos para um depósito definitivo, sob responsabilidade da CNEN. Já os elementos combustíveis de alta atividade são colocados dentro de uma piscina no interior das usinas, um depósito intermediário de longa duração, cercado de todos os requisitos de segurança exigidos internacionalmente”. Ao ser questionada quanto ao custo mencionado por Guimarães como “limitação” para uma estratégia de implantação em larga escala das fontes renováveis no Brasil, Karen afirma que o que falta é vontade política para identificar e derrubar as barreiras para a importação de tecnologias, seu posterior desenvolvimento no País e a concorrência, que tornaria mais barato o custo de produção. Além disso, salientou, o custo final deve levar em conta toda a cadeia produtiva e de distribuição, o que daria vantagem às renováveis.
Eficiência energética para preservar a nossa casa A utilização eficiente da energia foi citada no quarto relatório do IPCC, publicado em 2007, como uma das formas de conter o aquecimento do planeta, juntamente com o uso de energias renováveis, que não emitem gases-estufa (como hidrelétrica, solar, eólica, geotérmica, biomassa, marés e ondas), bem como a expansão do uso de transportes coletivos e a adoção de biocombustíveis, como o biodiesel e o etanol, nos automóveis. A energia nuclear é considerada pelo IPCC uma das fontes energéticas cujo uso deveria ser ampliado, justamente por não emitir CO2 na geração de energia. No entanto, seu uso gera preocupação entre os ambientalistas, que destacam o risco representado pelo lixo radioativo e por tragédias como a ocorrida há 21 anos na explosão de um reator da usina de Chernobyl, na Ucrânia, que segundo o Greenpeace teria causado mais de 90 mil mortes por câncer. O relatório do IPCC causou alarme em todo o mundo ao anunciar que o aquecimento global é um fato e que seus efeitos já afetam o clima da Terra, apontando como responsáveis as emissões humanas de gases causadores do efeito estufa (como dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e os clorofluorcarbonos). Segundo previsões dos cientistas do IPCC, a região amazônica é uma das mais vulneráveis ao aquecimento global, podendo se tornar savana até meados do século, com grande perda de biodiversidade. A vegetação do semiárido poderá, gradativamente, se tornar árida, e cidades litorâneas, como Rio de Janeiro e Recife, estarão mais expostas a enchentes. Mas ainda é possível agir: de acordo com os especialistas, usando as tecnologias disponíveis, nós temos as ferramentas necessárias para limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius (com base no período 1980-1999), ao custo de uma redução do crescimento do PIB mundial de 0,12 ponto percentual ao ano (menos de 3% no total) até 2030.
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